Lá pelos meados dos anos noventa, poucas pessoas tinham computador. Acesso à internet, então, quase ninguém sabia o que era. Sites de relacionamento, chats de bate papo eram coisas que não se ouviam falar. A novidade veio bastante cara e levou muita gente a dívidas astronômicas, o 0900.
Tinha 0900 pra tudo: horóscopo diário, tarô e todos os holísticos, bolsa de valores, preço do ouro, arroba do boi, saca de café, etc. Contudo, os que faziam mais sucesso eram os disque sexo, disque namoro e disque amizade. Um conhecido teve de pagar uma boa quantia, porque usava o telefone do trabalho para ligar para esses serviços. Acho que ele pensou que ninguém descobriria que era ele o autor de tais telefonemas.
Muitos pais quase tinham um infarto quando recebiam a conta de telefone e queriam esganar os filhos. A garotada adorava ligar para o disque sexo! Juntavam os amigos, quando os pais não estavam, a pretexto de estudar e ficavam horas pendurados no telefone.
Algumas amigas testaram o disque amizade e namoro e chegaram a conhecer pessoas bacanas. E contaram, entusiasmadas, pra mim e uma outra amiga. E lá, fomos, nós, fazer o teste na novidade.
Realmente, cheguei a conhecer algumas pessoas legais, que mantenho amizade até hoje; porém a maioria não valia o impulso cobrado. Era um festival de picaretagem e mentiras (como nos chats - todo mundo é Brad Pitt e Angelina Jolie). Ninguém falava o nome vedadeiro, pra começar; mentiam a idade, profissão, estado civil e por aí vai. Também demos muita risada com os 'sem noção', parecia programa de índio. Desistimos logo, antes que a conta de telefone também chegasse nas estrelas.
Um caso engraçado, que aconteceu com a minha amiga, eu não esqueço. Ela começo a conversar com um rapaz e, logo depois que falaram seus nomes (o dela, pelo menos, não era verdadeiro), ela perguntou se ele trabalhava e o quê fazia. Ela me contou que ele respondeu que era POETEIRO.
O quê? Ela também não sabia o que era. Eu disse que achava que ele era algum tipo de hippie, que ficava na Praça da República, entalhando poemas em quadros de madeira. Seria isso? Foi o que ocorreu a ela também. Perguntou a ele, que respondeu:
- Não, sou POETEIRO DE PREIDIO!